O enredo se repetia de maneira quase monótona. Estávamos nos anos 1980 e o Brasil enfrentava crises financeiras recorrentes que marcariam aquele período e ainda se estenderiam pela década seguinte. A quinta-feira era o dia predileto da semana para a disseminação de boatos no mercado financeiro, que impactavam os índices da bolsa, afetavam a cotação do dólar e faziam alçar voo os juros futuros.
A informação – falsa ou verdadeira? – chegava aos jornalistas que cobriam o Banco Central depois de repassada pelas sedes dos grandes veículos de comunicação às sucursais de Brasília. A assessoria de imprensa da instituição era consultada ainda na quinta-feira, uma vez caracterizados os efeitos nos indicadores de mercado. A resposta não vinha no mesmo dia, era preciso esperar os trâmites burocráticos das consultas a uma diretoria ou outra do BC.
Na maioria das vezes, a aguardada manifestação oficial era fornecida apenas no final do dia seguinte, sexta-feira. Nessa altura, o desmentido do boato – raramente a informação era verdadeira – só seria publicado nas edições do fim de semana dos jornais impressos e apenas repercutiria no mercado quando as operações retornassem na segunda-feira. Ou seja, os boatos permaneciam a céu aberto pelo menos por 48 horas, enquanto muitos perdiam dinheiro e outros acumulavam ganhos.
O ritual cumprido pela disseminação de informações falsas no mundo analógico soa inimaginável nos dias atuais, marcados pela divulgação de conteúdos na velocidade da luz nos ambientes digitais. A produção de informação em tempo real não afetou apenas o processo produtivo nas redações jornalísticas. Também se multiplicaram de forma exponencial os canais disponíveis nas diferentes plataformas, retirando dos veículos tradicionais de mídia a primazia de conduzir a dinâmica informacional.
Trazer esse contexto para a realidade das empresas privadas e instituições públicas significa dizer que o desafio de combater a desinformação é extremamente mais complexo no cenário contemporâneo. Marcas ou personalidades políticas podem ter suas reputações fulminadas em questão de segundos, tempo suficiente para que se disseminem informações inverídicas, com amplo alcance. O foco na temporalidade passa a ser uma questão de sobrevivência no jogo atual da comunicação.
Esse fenômeno, que já não é recente, ainda encontra pouco eco nas estruturas montadas para cuidar dos assuntos relacionados à presença institucional de empresas e atores públicos. Sem um planejamento detalhado que prepare essas estruturas para lidar com a instantaneidade da informação e da desinformação nos espaços digitais o risco à reputação é inevitável. O circuito em que as informações falsas transitam tem também as características da fragmentação, justamente para acelerar sua difusão.
A construção de narrativas e contranarrativas adequadas a esse cenário assume, portanto, importância estratégica cada vez maior, como mostra a proposta do Hub de proteção reputacional contra desinformação. E não se trata apenas de dotar as estruturas de comunicação da capacidade de gerar respostas rápidas e sim de conferir consistência ao diálogo cada vez mais intenso com o público. O espaço para oferecer sentido às informações fragmentadas também está aberto a uma melhor construção.
Essa ambição passa de forma direta pelo amadurecimento de empresas e instituições em busca do que podemos chamar de verdade informacional, um conceito que busca expressar o impacto do combate à desinformação na própria organização interna. Muitas vezes não será um processo confortável para lideranças tradicionais, mas certamente será gratificante para aqueles que enxergam o cenário atual da comunicação como uma oportunidade de reinvenção e um campo para inovar.



