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Meu reino por uma foto na internet

  • setembro 8, 2021

“Meu reino por uma foto na internet”
Análise de comunicação das manifestações de 7 de setembro

A comunicação digital contemporânea que habita o ambiente da internet é hoje o ponto central da arena política do século 21.  No universo do ciberespaço, a imagem é rainha. O poder imagético das narrativas visuais compartilhadas na webesfera constrói realidades, cria efeitos sociais, impulsiona votos e produz ilusões.

Eleito pelas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro e seus estrategistas conhecem o léxico cibernético e o poder da narrativa visual. “Podem ter certeza: será uma fotografia para o mundo do que vocês querem”, afirmou em Uberlândia, em 31 de agosto, ao convocar seus apoiadores para as ruas.

“As imagens tornaram-se as principais interfaces de intermediação do cotidiano”, afirma a professora da USP Giselle Beiguelman, autora do livro Políticas da Imagem: Vigilância e Resistência na Dadosfera. A proposta da obra é refletir sobre o estatuto da imagem na contemporaneidade.

Referência em estudos de comunicação e autor de best sellers como A sociedade em Rede, o sociólogo espanhol Manuel Castells pontua que as narrativas difundidas pelos meios de comunicação tecnológicos são, mais do que nunca, um componente essencial e volátil nas lutas de poder em que a opinião pública seja um fator importante.

As manifestações nas ruas ocorridas no feriado foram uma demonstração do uso de símbolos visuais, signos, mitos, cores e protocolos, objetos de estudo da semiologia. Para o escritor e sociólogo francês Roland Barthes (1915-1980), é o    estudo das significações que podem ser atribuídas aos fatos da vida social concebidos como sistemas de significação.

O espetáculo de ontem seguiu um script visual e cerimonial para dar a parecer. No discurso feito em Brasília, pela manhã, Bolsonaro “adotou tom de intimidação e enviou recados ao Supremo Tribunal Federal” (Globo). “Faz ameaça golpista”, escreveu a Folha. “Ameaça ao Congresso e ao Judiciário”, manchetou o Estado, todos em cobertura em tempo real nos sites. À tarde, na Avenida Paulista, Bolsonaro fez mais críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, à urna eletrônica e repetiu seu bordão: “Só Deus me tira de Brasília”.

Para colunistas e cientistas políticos, as manifestações antidemocráticas do feriado de 7 de setembro representam “o desespero de um governo combalido”, escreveu Hussein Kalout no Estadão. “Isso é um sequestro da Independência”, classificou a historiadora e cientista política Heloisa Starling na Folha.

No mesmo jornal, o presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Cebrap, Marcos Nobre escreveu: “O que Bolsonaro planeja é uma invasão do Capitólio organizada”, alertando que o bolsonarismo está hoje mais organizado que o campo democrático.

Matéria analítica publicada na segunda-feira, 6, no site da revista Piauí, reconstituiu com números e cartografias de postagens e trollagens na webesfera “O agosto que levou à setembrada”, narrando a “história da mobilização digital até o ‘tudo-ou-nada’ de Bolsonaro no Sete de Setembro”.

Imagem e projeção dos embates

Na análise feita no livro “Políticas da imagem” sobre as estratégias de Jair Bolsonaro para ganhar as eleições de 2018, Giselle Beiguelman afirma: “É na imagem, e não a partir dela, que os embates se projetam socialmente. Na explosão de fotos, vídeos e muitos memes que desembocam rapidamente nas redes, a imagem se converte em um dos territórios de disputa mais importantes da atualidade”.

No texto, a síntese analítica da campanha: “Bolsonaro e seus apoiadores introjetaram rapidamente essa dinâmica, um dos ingredientes mais importantes de sua receita de sucesso rumo ao Palácio do Planalto, calibrados pelas redes sociais.”

No Estadão, a colunista de política Eliane Catanhede destacou: “O foco de Bolsonaro hoje é a foto, para manter o governo, as chances de 2022 e o mito de pé”.  Além de fotografias e vídeos, o que se viu ontem foi uma carona na simbologia visual representativa do Poder Executivo, como o desfile no Rolls-Royce presidencial dirigido pelo ex-piloto de F-1 Nelson Piquet. Bolsonaro em pé, com a faixa verde-amarela e uma menina no colo. Nenhum dos passageiros usava máscara, mesmo que a variante Delta do coronavírus seja predominante na capital federal.

Invasão em tempo real

Nas mídias sociais, especialmente nos grupos apoiadores de Whatsapp e Telegram, muitas transmissões em tempo real, como a “invasão” da Esplanada na noite da véspera. Como mostrou em O Globo a jornalista Malu Gaspar, ao longo de segunda-feira, 6, esses grupos se transformaram em “agências de notícias” distribuindo profusão de vídeos sobre a mobilização.

Monitoramento da consultoria especializada Bites revelou que os perfis de Bolsonaro nas redes somaram uma média de 165.344 interações por posts nos últimos sete dias, cerca de 32% mais do que a média de 124.474 em cada publicação do presidente da República.

Na véspera de 7 de setembro, data considerada pelo presidente como uma “oportunidade”, ele editou a Medida Provisória (MP) que altera o Marco Civil da Internet e que limita a remoção de conteúdo das redes sociais.

Em seu livro de análise “Narrativas da mídia contemporânea e seus efeitos sociais”, a autora Simone Scafuto observa que “as narrativas midiáticas são estruturas sociossemióticas que projetam sentidos com potencial para constituir e moldar a realidade”.

No contexto atual de hiperconexão da comunicação digital, a força e o poder de narrativas visuais são inescapáveis para governantes, autoridades públicas e personalidades. Se fosse escrever hoje seu famoso drama Ricardo III (1592/1593), é provável que William Shakespeare trocasse a citação da frase do monarca antes de morrer: “Meu reino por uma foto na internet!”, diria o famoso personagem. Último rei inglês a morrer numa batalha, sua morte marcou o início da era Tudor, com a subida ao trono de Henrique VII.

Miriam Moura – Diretora de Curadoria e Conteúdo e Novos Produtos da Oficina Consultoria

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